Na manhãdesta sexta-feira , uma centena deagricultores das regiões de Yvelines eda Ile-de-France deslocaram-se para a Place d'Armes do Château de Versailles com cerca de vinte tractores. Segundo os organizadores da FDSEA e de Jeunes Agriculteurs, a ação tinha por objetivo chamar a atenção para o impacto que o acordo do Mercosul terá na profissão. A ação teve lugar de madrugada, antes da abertura do castelo ao público, tendo os manifestantes saído por volta das 11h30, para não perturbar o acesso dos visitantes ao monumento histórico.
As faixas penduradas nos tractores tinham uma mensagem clara: "A revolta dos camponeses está de volta a Versalhes", em referência aos acontecimentos de 1789. Olivier Gousseau, agricultor da região de Yvelines, em França, afirmou: "Continuamos na penúria", lamentando o agricultor "farto" da "falta de rendimentos, dos custos cada vez mais elevados e do preço do trigo cada vez mais baixo".
No centro desta cólera agrícola está o acordo de comércio livre entre a União Europeia e os países latino-americanos do Mercosul, validado pela Comissão Europeia no início de setembro. "Este acordo continua a ser tóxico, incompreensível e perigoso para os agricultores franceses", denunciam a FNSEA e os Jeunes Agriculteurs nos seus comunicados de imprensa.
Os sindicatos agrícolas apontam o dedo a vários aspectos problemáticos deste acordo comercial. O acordo facilitaria a importação de produtos agrícolas sul-americanos - carne, açúcar, arroz, mel, soja - produzidos em condições consideradas incompatíveis com as normas europeias. "É inconcebível que a União Europeia autorize a importação de produtos provenientes de práticas totalmente proibidas em França e na Europa há anos, senão décadas: utilização de moléculas fitossanitárias proibidas, desflorestação ilegal, maus tratos a animais".
Para Arnaud Rousseau, presidente da FNSEA, que esteve presente na Praça das Armas, "o objetivo desta mobilização é obviamente chamar a atenção do Chefe de Estado". Os agricultores pedem garantias concretas e não apenas promessas de medidas de salvaguarda, que consideram insuficientes.
Esta manifestação em Versalhes faz parte de um movimento mais vasto que afecta toda a França. Cerca de 70 acções estão a decorrer simultaneamente em 65 departamentos, desde operações com caracóis a controlos de produtos nos supermercados e manifestações à porta das prefeituras.
Os agricultores da região parisiense denunciam igualmente os direitos aduaneiros impostos pelos Estados Unidos - nomeadamente um aumento de 15% para o sector vitivinícola - e, de um modo mais geral, a concorrência desleal das importações que não respeitam as normas europeias. Pascal Verriele, Secretário-Geral da FDSEA de Seine-et-Marne, refere "o Mercosul e os contingentes de importação com isenção de direitos concedidos à Ucrânia. Tudo isto está a desestabilizar as nossas explorações agrícolas".
Embora o período das colheitas esteja atualmente a limitar a mobilização, com os agricultores ocupados com a vindima, a colheita do milho e a colheita da silagem, os sindicatos agrícolas prometem regressar com mais força. Os manifestantes prometem "voltar este inverno" se não forem ouvidos.
A FNSEA já está a pedir uma reunião urgente em Matignon com o primeiro-ministro Sébastien Lecornu. Arnaud Rousseau pede também a Emmanuel Macron que "reaja" aos receios relativos à assinatura do acordo Mercosul, aos direitos aduaneiros de Donald Trump e às crescentes dificuldades económicas do sector agrícola francês.
Esta jornada de ação de 26 de setembro pode, portanto, ser apenas um prenúncio de mobilizações mais amplas. Com efeito, a Confédération paysanne já anunciou uma manifestação "tractores à frente" em Paris, a 14 de outubro, sinal de que o movimento de contestação agrícola não está prestes a perder o fôlego.
Para os agricultores franceses, o que está em jogo não é apenas uma questão económica: trata-se de preservar a soberania alimentar do país e de garantir uma agricultura que respeite as normas ambientais e sanitárias mais rigorosas do mundo.















