Dossier 137 de Dominik Moll, na Competição Oficial do Festival de Cannes 2025: o nosso veredito

Por Manon de Sortiraparis · Actualizado em 16 de maio de 2025 às 21h11 · Publicado em 10 de abril de 2025 às 13h23
Será que o novo filme de Dominik Moll, Dossier 137, terá o mesmo sucesso que La Nuit du 12? A longa-metragem foi apresentada na competição oficial do Festival de Cannes 2025. Descubra a nossa opinião.

Com Dossiê 137, Dominik Moll estreia mais um longa policial, coescrito com Gilles Marchand, que mantém a mesma linha temática de A Noite do 12. O filme foi selecionado para a competição oficial no Festival de Cannes 2025 e chega às telas francesas em 19 de novembro de 2025. Com a atuação de Léa Drucker, ao lado de Guslagie Malanda e Mathilde Roehrich, o filme aborda desta vez um território pouco explorado no cinema: a IGPN, a polícia das polícias.

O caso 137 parece, a princípio, ser apenas mais uma ocorrência para Stéphanie, uma investigadora experiente encarregada de apurar uma incursão policial durante uma manifestação tensa. Um jovem ficou gravemente ferido por disparo de bomba de gás, e as responsabilidades precisam ser apuradas. Mas à medida que a investigação avança, esse simples número administrativo se transforma em uma questão pessoal, colocando em dúvida suas certezas profissionais e morais.

A narrativa se desenrola em um contexto social e político específico, inspirado diretamente em acontecimentos reais durante as manifestações dos Gilets Jaunes. Dominik Moll base-se numa imersão profunda na delegacia parisiense da IGPN, possibilitada pela abertura de sua direção. Essa abordagem de fundo documental reforça a precisão do procedimento no filme, que valoriza as técnicas de investigação, a linguagem jurídica e a complexidade das contradições.

O trailer de Dossiê 137

Arquivo 137

De dezembro de 2018. O movimento dos Coletes Amarelos ganha força por toda a França. Em Paris, manifestantes se reúnem nos Campos Elísios a cada sábado, marchando incansavelmente vestidos com suas coletes fluorescentes. Um período de protestos intensos e turbulentos, que trouxe à tona — ou melhor, fez ressurgir — o espectro da violência policial, marcando de forma indelével as histórias de luta na França (não podemos deixar de lembrar o trabalho do jornalista e documentarista David Dufresne, que registrou cada uma dessas ações), consolidando uma trajetória que parece predestinada: agora, qualquer manifestação, por mais pacífica que seja, corre o risco de terminar de forma violenta.

Inserido num contexto tão especial, o novo filme de Dominik Moll, Dossiê 137, foi apresentado na competição oficial do Festival de Cannes 2025. Assim como seu antecessor de grande sucesso (A Noite do 12), este novo trabalho do cineasta francês é uma investigação policial, mas que se desenrola bem no âmago da polícia às avessas, a IGPN, os "bois-carottes" para os íntimos.

Léa Drucker interpreta Stéphanie, uma investigadora da IGPN encarregada de apurar os seus colegas da BRI. Quatro deles são acusados de disparar com uma LBD 40 num manifestante pacifista, deixando-o em estado grave. É claro que, por ser altamente político, Dossiê 137 poderia facilmente ter se tornado problemático ao pender para um lado (ACAB) ou para o outro (apoio à polícia). No entanto, a obra apresentada aos espectadores do festival se revela comedida e orientada para o diálogo, com Dominik Moll evitando cair em um maniqueísmo excessivo.

O diretor francês encontra o olhar certo e a distância adequada para abordar os acontecimentos, apoiando-se em uma demonstrão implacável – na era da multiplicidade de meios visuais – e contando com uma Léa Drucker em excelente forma que dá vida a essa investigadora de semblante contido, mas disposta a tudo (mesmo a ultrapassar alguns limites) para expor a verdade. Assim, ela consegue equilibrar sua própria moralidade com uma profissão que recebe muitas críticas.

Porém, o filme não se envergonha de mostrar sua mensagem e denuncia de forma clara como a “polícia sempre se dá bem”, zombando assim das falsas justificativas e das explicações patéticas dos policiais envolvidos (a sala riu… de desânimo), protegidos por um sistema criado por homens brancos no poder, onde o silêncio é absoluto. É difícil não sair dali com uma sensação de frustração.

O filme se destaca também por várias escolhas marcantes na direção. Os vídeos de smartphones, que estão presentes de forma constante nas investigações atuais, foram majoritariamente recriados e encenados para refletir seu papel central na comprovação dos fatos. A filmagem em Saint-Dizier, cidade operária marcada pela desindustrialização e pelos movimentos sociais, conecta a narrativa a uma França periférica pouco retratada no cinema.

Dominik Moll optou por focar a narrativa em uma personagem feminina, invertendo as dinâmicas de poder tradicionais. Léa Drucker se preparou entrevistando diversas profissionais da IGPN para retratar com fidelidade a rotina de uma profissão muitas vezes exercida sem paixão inicial.

Dossier 137
Filme | 2025
Estreia nos cinemas: 19 de novembro de 2025
Suspense | Duração: 1h55
Dirigido por Dominik Moll | Com Léa Drucker, Guslagie Malanda, Mathilde Roehrich
Nacionalidade: França

Arquivo 137

Com Dossiê 137, Dominik Moll segue aprofundando seu cinema de investigação enraizado na realidade, atento aos mecanismos institucionais e às fragilidades humanas. Exibido entre os filmes em competição pela Palma de Ouro, o longa mantém-se dentro de uma tradição de thrillers franceses contemporâneos com forte carga social.

Para estender a experiência na sala de cinema, consulte as lançamentos do mês de novembro, os filmes em destaque no momento e nossa seleção dos melhores filmes franceses do ano.

Informação prática

Datas e horário de abertura
Do 19 de novembro de 2025

× Horários de abertura aproximados: para confirmar os horários de abertura, contactar o estabelecimento.
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