The Ugly nos cinemas: nossa opinião sobre o thriller comovente de Yeon Sang-ho

Por Julie de Sortiraparis · Actualizado em 29 de julho de 2026 às 10h15
Nos cinemas em 29 de julho de 2026, The Ugly marca uma guinada na carreira de Yeon Sang-ho. Com essa investigação familiar sombria e profundamente melancólica, o realizador de O Trem para Busan assina um thriller que disseca sobretudo a fealdade moral de uma sociedade obcecada pelas aparências.

O Feio, o novo thriller do director sul-coreano Yeon Sang-ho, conhecido sobretudo por Último Trem para Busan, chega aos cinemas em 29 de julho de 2026. Estrelado por Park Jeong-min, Kwon Hae-hyo, Shin Hyun-been e Han Ji-hyeon, o filme assume a forma de uma investigação familiar sombria sobre preconceitos, memória e violência social.

Com The Ugly, Yeon Sang-ho continua a explorar as zonas cinzentas da sociedade coreana, mas desta vez abandona o fantástico e o espetáculo. Adaptado de sua própria história em quadrinhos Face, publicada em 2018, o filme privilegia uma forma mais intimista, estruturada em depoimentos, memórias e retomadas ao passado.

A história acompanha o filho de um gravador de selos cego após a descoberta dos ossos de sua mãe, desaparecida há quarenta anos. Acompanhado por uma produtora de televisão que veio inicialmente para fazer uma matéria sobre o trabalho extraordinário do pai dele, ele tenta reconstruir a vida daquela mulher de quem os parentes parecem ter guardado apenas a ideia de uma suposta feiura.

O elenco reúne Park Jeong-min, que interpreta um duplo papel, o filho no presente e o pai na juventude dele, Kwon Hae-hyo, Shin Hyun-been e Han Ji-hyeon. Juntos, eles dão vida a uma história em que a tensão nasce menos dos reviravoltas policiais do que das contradições, dos silêncios e da violência contida nos depoimentos.

Bem distante da energia de Último Trem para Busan, The Ugly apresenta-se mais como uma autópsia familiar e moral do que como um puro thriller criminal. Uma proposta sombria, muito dialogada, que questiona a forma como uma sociedade pode reduzir uma pessoa à aparência e transformar um julgamento coletivo em verdade oficial.

Nossa opinião sobre The Ugly

No filme The Ugly, um rosto fica longos períodos fora do alcance, oculto pela mise-en-scène, pelo cabelo e, sobretudo, pelas palavras de quem pretende lembrar dele. O que esses testemunhos descrevem com uma crueldade quase mecânica importa menos do que o que seus relatos revelam sobre si mesmos. Conforme a investigação avança, a suposta feiura de uma mulher transforma-se no espelho de uma dor bem mais profunda: a de uma família e, por extensão, de toda a sociedade.

Yeon Sang-ho abandona aqui multidões, zumbis e grandes movimentos espetaculares para um drama estreito em torno dos atores e da palavra. O cineasta constrói a narrativa por meio de uma sequência de entrevistas, cada uma abrindo um novo retorno ao passado. Informações se cruzam, se contestam e vão desmontando, aos poucos, a narrativa enaltecedora construída em torno do pai.

A investigação prende menos pela complexidade do mistério do que por essa acumulação de testemunhos. Cada novo pronunciamento acrescenta uma camada de violência ao retrato coletivo. As palavras usadas para falar da desaparecida são humilhantes, por vezes insuportáveis pela sua banalidade. Um apelido insultante funciona como identidade, como se a personalidade, desejos e dignidade dela tivessem sido definitivamente trocados pelo veredito do grupo.

Essa construção pode parecer estática ou repetitiva, mas gera uma sensação de sufocamento coerente com o tema. A palavra não liberta a verdade imediatamente: antes mostra como uma sociedade fabrica uma versão conveniente de um ser humano. Os testemunhos justificam-se, minimizam ações ou contam a crueldade como uma evidência antiga. Cada entrevista passa, portanto, a ser menos fonte confiável do que reveladora de preconceitos, covardias e interesses pessoais.

A grande força de The Ugly reside no contraste entre a beleza exibida e a feiúra moral. O pai, cego, é cultuado pelos selos magníficos que gravou. Ao seu redor formou-se a imagem valorizante de um artista que superou seu próprio handicape. Mas essa legenda pública vai revelando gradualmente suas falhas íntimas.

Aquele que não enxerga os rostos não escapa nem ao olhar social nem à vergonha que ele pode provocar. O filme mostra, com amargura, o quanto o desejo de ascender e de ser reconhecido pode levar a tratar a pessoa mais vulnerável como uma humilhação ou um obstáculo. A cegueira do personagem não se torna, portanto, um símbolo tranquilizador de indiferença às aparências: pelo contrário, revela o quanto os preconceitos podem ser internalizados sem sequer passar pelo olhar.

Essa contradição também atravessa a personagem da produtora. Chega para filmar o talento do gravador, percebe rapidamente que um enredo criminal e familiar pode atrair mais atenção. Seu interesse, de fato, ajuda a desenterrar uma história soterrada, mas a câmera nunca é instrumento inocente. Ela devolve uma palavra, enquanto seleciona o que fará um assunto mais vendável. The Ugly questiona, assim, a fronteira tênue entre revelar uma injustiça e transformar a dor em espetáculo.

Os retornos à Coreia industrial dos anos 1970 ampliam esta tragédia familiar para uma violência social mais ampla. No universo operário retratado, as mulheres sofrem humilhações, tapas, agressões e a autoridade de homens protegidos pela posição. A brutalidade dirigida à mãe não decorre apenas de indivíduos excepcionalmente cruéis. Ela prospera em um sistema onde classe social, gênero e aparência definem o valor que cada um recebe.

O filme acumula as figuras dessa violência cotidiana: colegas que humilham sem remorsos, um superior que usa seu poder, uma família mais preocupada com o legado do que com a falecida, um marido que vê a mulher como um freio à própria ascensão. Tudo parece “feio”, não pela aparência física, mas pela linha de egoísmo, oportunismo e ausência de empatia que governa as relações humanas.

Park Jeong-min, que interpreta o filho no presente e o pai na juventude, conduz com eficácia esse jogo de correspondências entre gerações. Seu duplo papel materializa uma linha de descendência desconfortável: buscar a verdade sobre a mãe obriga também o filho a olhar de outra forma para o homem admirado que é seu pai. Sem artifícios, o ator distingue os dois personagens, ao mesmo tempo em que deixa transparecer o que pode passar de uma época para outra.

Contudo, o dispositivo não está livre de limites. Certos personagens encarnam tão nitidamente uma forma de violência, de covardia ou de hipocrisia que o discurso parece já escrito antes mesmo de terminar de falar. A sucessão de revelações pouco espaço para a ambiguidade, e a demonstração social pode soar forçada.

A mãe permanece também por muito tempo presa aos relatos produzidos sobre ela. O filme pretende devolver-lhe uma existência, mas a escolha de ocultar o rosto e adiar constantemente seu ponto de vista alimenta a curiosidade que ele diz questionar. Essa contradição é perturbadora: para denunciar a obsessão coletiva em torno de sua aparência, o enredo usa em parte essa própria obsessão como motor de suspense.

Essa limitação, contudo, não anula a emoção do filme. Faz, ao contrário, ainda mais desconfortável. The Ugly prende a atenção, mas é atravessado por uma tristeza quase sem saída. As humilhações se acumulam até desenhar um mundo em que quase todos exploram a vulnerabilidade alheia: para preservar uma reputação, defender uma posição social, obter um legado ou fabricar um enredo midiático mais atraente.

O filme se dirige mais aos fãs de thrillers psicológicos, investigações familiares e ao cinema sul-coreano social. Pode igualmente tocar espectadores sensíveis a reflexões sobre padrões físicos, patriarcado, memória, violência de classe e a construção coletiva de preconceitos. Quem quiser conhecer uma faceta mais íntima de Yeon Sang-ho encontrará aqui uma obra muito diferente da energia de Train to Busan.

Talvez não agrade a quem procura um thriller policial repleto de ação, pistas falsas ou reviravoltas complexas. Seu ritmo depende principalmente de diálogos, depoimentos e flashbacks. Quem for sensível às humilhações repetidas, à violência sexual, aos tapas e ao assédio ligados à aparência precisa saber que o filme aborda esses temas com uma escuridão persistente.

The Ugly não conta, afinal, a história de uma mulher feia, mas de uma mulher a quem os outros decidiram reduzir a esse rótulo. Apesar de uma demonstração por vezes excessiva, Yeon Sang-ho constrói uma autópsia familiar e social envolvente, cuja verdadeira charada não é um rosto oculto, mas a facilidade com que pessoas comuns aprendem a deixar de ver a humanidade de alguém.

Para prolongar a experiência na sala, confira as estreias de cinema do mês de julho, os filmes para ver neste momento e a nossa seleção de thrillers do ano.

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Informação prática

Datas e horário de abertura
Do 29 de julho de 2026

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