Muito antes de a linha 1 do metrô partir da Porte de Vincennes até a Porte Maillot em 19 de julho de 1900, Paris já tinha inventado o transporte público em grande escala. Nas ruas da capital, dominava desde 1828 o omnibus hippomóvel, cujo estrondo dos cascos marcava as primeiras rotas de uma rede que, sem perceber na época, antecipava a atual RATP. Um capítulo pouco conhecido da história, porém fascinante, ainda visível em alguns recantos de Paris.
A história começa em Nantes, não em Paris. É lá que um empreendedor local, Stanislas Baudry, lança em 1826 os primeiros veículos de itinerários fixos. Segundo a lenda, a inspiração teria surgido quando ele percebeu que seus clientes paravam espontaneamente em frente à loja de um chapéu chamado Omnes, cujo letreiro exibia orgulhosamente "Omnes omnibus" — que significa "Omnes para todos" em latim. Foi assim que nasceu a palavra omnibus. Dois anos depois, em 30 de janeiro de 1828, Baudry consegue a autorização do prefeito de polícia de Paris para inaugurar a primeira linha regular na cidade, ligando a rua de Lancry à Madeleine e à Bastilha. O preço? 25 centavos por viagem. E o sucesso foi imediato: entre abril e outubro de 1828, mais de dois milhões e meio de passageiros utilizam esses carros, como detalha a Biblioteca Nacional da França na sua seleção sobre os transportes parisienses.
Diante desse entusiasmo, a concorrência se intensifica. Desde 1829, cerca de trinta empresas disputam as ruas de Paris sob nomes poéticos: Andorinhas, Gazelas, Favoritas, Damas-Reunidas... Paris, então, parece uma colmeia de carruagens, e o barão Haussmann, então prefeito de Sena, decide pôr ordem na confusão. Em 1855, ele promove a fusão de todas essas companhias em uma única entidade: a Companhia Geral de Ônibus (CGO), que passa a ter o monopólio do transporte por superfície na cidade. Já em 1860, possui uma frota de 503 ônibus e uma cavalaria de 6.700 cavalos distribuídos em enormes depósitos espalhados pelos quatro cantos de Paris.
O que hoje é difícil de imaginar é a escala industrial que representava essa cavalaria urbana. A CGO gerenciava seus cavalos como se fosse um exército: cada animal era numerado na chegada, acompanhado por um veterinário, e submetido a uma dieta rigorosa — uma mistura de aveia, milho e ervilhas, preparada mecanicamente nos depósitos. Os forragens chegavam de trem, vindo da Borgonha. A partir de 1878, um dispositivo dinamométrico instalado em cada bonde registrava o esforço feito pelos animais, garantindo que não fossem exaustos além de três a quatro horas de trabalho diário. Os grandes carros de plataforma, construídos nos ateliês da CGO, podiam levar até 40 passageiros — sentados na parte inferior, ou ao ar livre na plataforma superior. Toda essa organização está detalhada nas arquivos digitalizados da Gallica, a biblioteca digital da BnF.
Em 11 de janeiro de 1913, uma procissão inusitada percorreu praça Saint-Sulpice diante dos olhares de uma multidão animada. Não se tratava de um funeral comum: os parisienses celebraram, em uma agitação festiva, o último trajeto do último bonde puxado por cavalos a circular na capital, eternizado por uma fotografia da Agência Rol preservada na BnF. A chegada do ônibus motorizado, mais rápido e mais barato, marcou definitivamente o fim dessa era. A própria CGO desapareceu em 1921, sendo incorporada à Sociedade de Transporte Coletivo da Região de Paris, antecessora direta da RATP. Em menos de um século, Paris criou, desenvolveu e sepultou um sistema de transporte completo.
Se os carros desapareceram, alguns vestígios ainda permanecem. A AMTUIR, o Museu de Transportes Urbanos, preserva, entre outros itens, o omnibus puxado por cavalos n° 2177 da CGO, de 1889, que circulou até 1912. As bibliotecas especializadas de Paris também guardam arquivos e planos das primeiras linhas de bondes. E, para os entusiastas de imagens antigas, Gallica, a biblioteca digital da BnF, oferece uma infinidade de fotografias de jornal e estampas que retratam esses gigantes de tração animal nas ruas ao estilo Haussmann.
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