As famosas gárgulas de Notre-Dame e, de um modo mais geral, das catedrais góticas, não são apenas criaturas místicas esculpidas em pedra para apimentar as fotografias dos turistas. O seu papel é muito mais realista: as sarjetas! Estas estátuas grotescas, muitas vezes representadas sob a forma de animais ou criaturas fantásticas, são tubos destinados a escoar a água da chuva.
As gárgulas atingiram o seu apogeu no século XII, com o aparecimento da arquitetura gótica. Reflectem o engenho técnico da época: ao afastar a água das paredes, protegem as estruturas, nomeadamente as juntas de argamassa, sensíveis à humidade. A sua função era desviar a água do edifício para evitar que danificasse as fundações e as paredes. A água da chuva é encaminhada para as suas bocas e sai da catedral através de condutas invisíveis.
Gargouille vem do latim gargula, que significa garganta... e, por extensão, o som da água a correr por ela. Assim, não é por acaso que o verbo gargouiller, que evoca o famoso som gorgolejante de um estômago ou de um tubo, partilha a mesma raiz!
Muitas vezes esculpidas em pedra calcária, um material comum na região de Île-de-France, as gárgulas são facilmente corroídas pela chuva ácida. É por isso que muitas delas foram substituídas ou restauradas ao longo dos séculos.
Para além da sua função prática, as gárgulas tinham também uma dimensão simbólica. Por vezes, representavam forças maléficas ou demoníacas expulsas do interior da igreja, encarnando a vitória do sagrado sobre o profano. Eram também uma forma de a Igreja "falar" ao povo, maioritariamente analfabeto, através de imagens poderosas.
Não confundir com as quimeras, as esculturas que adornam os telhados e as cornijas, mas cujo papel não é desviar a água. Estão lá apenas para decoração, para dar aquele misterioso toque gótico à silhueta da catedral.
Da próxima vez que se cruzar com gárgulas, lembre-se: elas não estão lá para assustar, mas para manter a Notre-Dame e outras catedrais secas!
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